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A biópsia veio com "margens livres". Estou curado?

  • Foto do escritor: Dra Amália Sathler- Oncodermatologista
    Dra Amália Sathler- Oncodermatologista
  • 11 de mai.
  • 2 min de leitura

Receber o tão esperado resultado de biópsia informando “margens livres” costuma trazer um grande alívio. E, de fato, esse é um excelente sinal. Mas existe um detalhe importante que poucos pacientes conhecem: em patologia, “margens livres” não significa avaliação de 100% de toda a margem cirúrgica. E qual a importância disso? A importância é saber que margens livres não significa que o câncer de pele foi totalmente retirado. Pode trazer a falsa sensação de segurança e de que o paciente não precisa mais de acompanhamento.


A técnica histológica mais utilizada no mundo para analisar peças cirúrgicas é chamada de "bread-loafing" (fatiamento em pão de forma), como ilustrado abaixo. Nela, o material da pele removido e enviado para o patologista é cortado em fatias seriadas, geralmente a cada 3 a 5 mm, de maneira semelhante ao corte de um pão de forma. Essas amostras são então processadas, incluídas em parafina, cortadas em lâminas microscópicas extremamente finas e analisadas pelo patologista.


O problema é que essa técnica avalia apenas pequenas áreas representativas da peça e não toda a superfície das margens. A técnica baseia-se no princípio da amostragem. Assim, o patologista consegue dar o diagnóstico com precisão e rapidez, mas pode sim deixar passar algum acometimento microscópico que as amostras selecionadas não tinham.


Pão fatiado ilustra a técnica de análise histológica "Bread Loafing"
Pão fatiado ilustra a técnica de análise histológica "Bread Loafing"

Estudos clássicos mostram que o "bread-loafing" convencional examina apenas cerca de 1% a 2% da margem total do espécime cirúrgico. Isso significa que podem existir focos microscópicos tumorais entre os cortes realizados, sem serem visualizados na análise. Quando pensamos em câncer, o ideal é que tenhamos certeza que 100% do tumor foi realmente removido.


Em um estudo envolvendo carcinomas basocelulares do rosto, o "bread-loafing" realizado a intervalos de 4 mm apresentou sensibilidade de apenas 44% para detectar tumor residual nas margens.

Outro dado impressionante vem do melanoma in situ: cortes realizados a cada 4 mm detectariam margens comprometidas em apenas 19% dos casos. Para detectar teoricamente 100% das margens positivas, seria necessário cortar a peça a cada 0,1 mm, algo inviável na prática convencional devido técnica avançada e tempo desgastado.


Além disso, estudos comparando a histologia convencional com a cirurgia micrográfica de Mohs ( uma técnica que avalia 100% das margens), encontraram cerca de 8,7% de resultados falso-negativos, ou seja, casos em que o laudo dizia “margens livres”, mas ainda existia tumor residual.


Mas calma, isso não significa que o exame anatomopatológico “falhou” ou que margens livres não sejam importantes. Pelo contrário, o resultado continua tendo enorme valor clínico e prognóstico. Porém, ele deve sempre ser interpretado dentro das limitações técnicas do método utilizado.


Por isso, o seguimento clínico continua sendo fundamental especialmente em cânceres de pele de maior risco, lesões faciais, melanomas, tumores recidivados ou casos com limites clínicos pouco definidos ou pacientes previamente submetidos à radioterapia.


Na medicina, “margens livres” é uma excelente notícia. Mas ciência e honestidade médica exigem reconhecer que, na maioria das técnicas convencionais, isso não equivale a uma avaliação completa de 100% da margem cirúrgica.


Para avaliação de 100% das margens existem outras técnicas histológicas e elas serão abordadas nos próximos posts. Fique atento e grade abraço.

 
 
 

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