Por que eu uso dermatoscópio?
- Dra Amália Sathler- Oncodermatologista

- 25 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de abr.
Muitos pacientes tem curiosidade de saber o que vemos através do dermatoscópio que nos ajuda tanto na prática clínica. Essa é uma das perguntas mais importantes e a resposta é porque o dermatoscópio nos permite ver o que o olho nu não consegue.

A dermatoscopia é um exame não invasivo, indolor, que deve ser feito durante a consulta dermatológica. Ele permite ampliar e iluminar a pele, retirando reflexos indesejáveis e revelando estruturas mais profundas do que se veria a olho nu. Não se trata apenas de aproximar a imagem, mas de analisar padrões que correspondem a achados microscópicos que indicam se uma lesão é benigna ou suspeita de malignidade. Em outras palavras, nos ajuda principalmente a identificar câncer de pele.
Então é fácil? É só usar o aparelho que tenho a resposta?
Definitivamente não. Não basta olhar através do dermatoscópio, é preciso interpretar o que se está vendo. Não existe um laudo que sai do aparelho. O exame é dependente do examinador, ou seja, depende da interpretação de quem usa. Daí a importância da especialização e da curva de aprendizagem do profissional.
Muitas lesões que parecem completamente normais a olho nu podem esconder sinais de alerta quando analisadas com o dermatoscópio. Um nevo regular, homogêneo, ou até uma ceratose seborreica típica pode apresentar heterogeneidade, borramento ou padrões atípicos que aumentam a suspeita para melanoma, o câncer de pele mais agressivo.
O contrário também acontece. Lesões clinicamente irregulares e assustadoras podem mostrar critérios claros de benignidade, como pseudocistos de milia, aberturas foliculares e bordas bem definidas nas ceratoses seborreicas, permitindo evitar procedimentos desnecessários. Por isso, a dermatoscopia não é apenas um exame, é uma ferramenta de decisão clínica.
E a regra do ABCDE? Não é só usar?
Não. Detectar precocemente uma lesão muda todo o prognóstico do paciente. Um dos maiores benefícios da dermatoscopia é identificar melanomas muito precocemente, especialmente os pequenos, que ainda não apresentam os critérios clássicos, como o ABCDE. Isso aumenta em cerca de 20 por cento a capacidade de detectar melanoma. Quando um melanoma apresenta o ABCDE a olho nu, provavelmente já está em estágios mais avançados de invasão.
Em contrapartida, lesões iniciais também podem já ser invasivas, mesmo sem sinais evidentes. Com a dermatoscopia, é possível reconhecer alterações sutis e indicar a retirada precoce e, muitas vezes, curativa.
Por que meu médico coloca o aparelho em todas as minhas lesões de pele?
Confie no processo e no exame. Acredite na intenção do seu médico. Confiar apenas na aparência clínica faz com que diagnósticos importantes sejam perdidos. Se o dermatoscópio for usado apenas nas lesões suspeitas, algumas suspeitas nunca serão vistas. Além disso, em pacientes com muitas lesões, a comparação dermatoscópica é essencial para identificar aquela que foge do padrão.
Mais precisão, menos biópsias desnecessárias
A dermatoscopia melhora muito a precisão da consulta. Na prática, os estudos mostram que o uso da dermatoscopia reduz em cerca de 50 por cento as biópsias desnecessárias de pele, aumenta a assertividade na indicação de retirada de uma pinta e, com isso, diminui riscos e custos para o paciente. Isso significa examinar melhor e intervir apenas quando realmente necessário.
Mas a dermatoscopia vai muito além do câncer de pele
Meu foco é oncologia cutânea e, por isso, minha maior preocupação é com câncer de pele. Mas, apesar de ser essencial na avaliação de tumores, a dermatoscopia também ajuda no diagnóstico de doenças inflamatórias e infecciosas da pele, como psoríase, lúpus cutâneo, líquen plano, escabiose e molusco contagioso. Ou seja, o dermatologista não tem como abrir mão desse investimento. É um aparelho caro, importado, que exige cuidado e manutenção.
Todo dermatologista usa o dermatoscópio?
Infelizmente, essa não é a realidade. A dermatoscopia é uma habilidade aprendida e está evoluindo a cada dia. O dermatoscópio, por si só, não faz diagnóstico. A interpretação depende do dermatologista. É uma habilidade que exige treinamento, estudo e experiência, com uma curva de aprendizado semelhante a outras áreas da medicina.
Pequenos detalhes fazem grande diferença, e é essa leitura refinada que guia a conduta.
Não é um detalhe da consulta. É parte essencial de uma avaliação dermatológica de qualidade.



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